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Maior ataque a Israel em 50 anos revela preparo inédito de extremistas palestinos

Maior ataque a Israel em 50 anos revela preparo inédito de extremistas palestinos

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Ataques de insurgentes palestinos a Israel não são raros. Com maior ou menor força, o grupo terrorista Hamas tem realizado ofensivas que levaram à reação israelense. No entanto, a ação que teve início neste sábado (7) demonstra um nível de coordenação e preparo militar inédito dos radicais palestinos, que o governo israelense e seu serviço de inteligência não foram capazes de interceptar.
As ofensivas pontuais geralmente ocorrem com foguetes lançados de Gaza contra o sul do país. Esse armamento é contido pelo Domo de Ferro, sistema antimíssil desenvolvido com a ajuda dos Estados Unidos. Ao longo dos anos esses ataques ajudaram a manter a tensão regional.
No entanto, além de milhares de foguetes, o Hamas conseguiu infiltrar neste sábado cerca de mil combatentes por terra no território israelense a partir da Faixa de Gaza, matando civis em diversas cidades e fazendo reféns. Há relatos de extremistas palestinos acessando Israel de parapente, ataques a delegacias e tentativa de acesso pelo mar. O Domo de Ferro não conseguiu conter todos os foguetes e mísseis lançados.
“O grupo Jihad Islâmica e o Hamas usam recursos financeiros que deveriam ser destinados ao desenvolvimento da Faixa de Gaza para o investimento em armas”, afirma Leonardo Coutinho, pesquisador e comentarista sobre segurança e relações internacionais e colunista da Gazeta do Povo. Ele apontou que os foguetes utilizados pelo Hamas em grande quantidade não são precisos, mas são eficientes em provocar destruição.
“Fazemos parte desta batalha, os nossos combatentes estão lado a lado com os seus irmãos nas Brigadas Qassam [braço armado do Hamas] até que a vitória seja alcançada”, disse o porta-voz da Jihad Islâmica, Abu Hamza, no Telegram, após o início dos ataques.
A estimativa do governo israelense é de que 57 pessoas, entre civis e militares, teriam sido feitas reféns e levadas para a região da Faixa de Gaza. O porta-voz do exército israelense confirmou que há reféns nas comunidades de Ofakim e Be’eri. Coutinho ressaltou que esta ação mostra que o Hamas “está disposto a levar a guerra de solo para dentro da Faixa de Gaza”.
Em entrevista ao canal catariano Al Jazeera, o vice-chefe do escritório político do Hamas, Saleh al-Arouri, afirmou que “o número de reféns que temos libertará todos os nossos presos das prisões israelenses”. Segundo ele, o Hamas “entrou nessa batalha preparado para todos os cenários, incluindo um de longo prazo”. Arouri disse que o Hamas está pronto para enfrentar uma incursão terrestre israelense em Gaza e afirmou que este é “o melhor cenário para resolver o conflito contra o inimigo”.
O grupo palestino já usou reféns como moeda de troca contra Israel. Em 2006, o grupo capturou o soldado israelense Gilad Shalit, que só foi libertado em 2011, após a libertação de mais de mil prisioneiros palestinos.
Paralelamente à guerra aberta entre Israel e as milícias da Faixa de Gaza, após um ataque múltiplo sem precedentes do grupo islâmico Hamas por terra, mar e ar, houve tumultos, protestos e confrontos em várias partes da Cisjordânia, incluindo Jericó, Ramallah, Hebron e Qalqiliya, áreas entre as quais houve, até o momento, quatro mortos em vários incidentes, segundo a Agência EFE.
Os serviços de emergência confirmaram que ao menos 432 pessoas morreram, sendo 200 em Israel e 232 na Faixa de Gaza, segundo a imprensa internacional. O Ministério da Saúde de Israel divulgou que, até 21h30 (horário local), 1.452 feridos foram levados para hospitais. Desse total, 18 estão em condição crítica e 267 com quadro de saúde grave.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou estado de guerra e iniciou bombardeios contra diversas localidades na Faixa de Gaza em resposta ao ataque do Hamas. As tropas israelenses estão mobilizando milhares de reservistas e lutando em diferentes áreas ao redor de Gaza. Não há expectativa para um cessar-fogo. “Cidadãos de Israel, estamos em guerra. Não em uma operação ou em rodadas de luta. Em uma guerra”, afirmou.
Após o primeiro discurso, Netanyahu afirmou que o Exército israelense utilizará “todo o seu poder” para destruir o Hamas e pediu aos palestinos para que abandonem a Faixa de Gaza, avisando que reduzirá os esconderijos dos milicianos a “escombros”. A reação não será somente militar. O ministro da Energia de Israel, Israel Katz, já ordenou que a empresa pública de energia elétrica “cesse o fornecimento de eletricidade a Gaza” em retaliação aos ataques do Hamas.
O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, declarou apoio aos aliados internacionais. “Nunca falharemos em protegê-los. Garantimos que eles terão a ajuda que seus cidadãos precisam e, também, que eles possam continuar a se defender”, afirmou em discurso nesta tarde. “Esse não é um momento para os inimigos de Israel explorarem esses ataques para buscar vantagem. O mundo está de olho”, ressaltou. Ainda não há mobilização externa de forças militares em apoio a Israel.
O ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, príncipe Faisal bin Farhan, conversou com o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e fez um apelo ao fim da violência em Gaza. Em nota, o ministério saudita afirmou que os dois discutiram sobre “a necessidade de trabalhar para uma interrupção imediata da escalada” da violência. Faisal ressaltou que a Arábia Saudita “rejeita fazer civis como alvos e reforça a necessidade de todas as partes respeitarem o direito humanitário internacional”.
Neste contexto, a recente aproximação entre Israel e Arábia Saudita intermediada pelos EUA podem ter contribuído para aumentar a tensão com os palestinos. “Isso não agrada o Hamas, que, apesar de ser um grupo palestino (ou seja, árabe) sunita islamista, é apoiado pelo Irã e é considerado um grupo terrorista pelos sauditas. No processo de normalização, os sauditas defendem também interesses dos palestinos, mas os representados pelo Fatah, o rival intra-palestino do Hamas. Ou seja, a operação do Hamas também pode ser uma forma de marcar a diferença entre o radicalismo do grupo e a negociação saudita”, afirmou Filipe Figueiredo, professor de política internacional e colunista da Gazeta do Povo.
Já o líder do chamado “Eixo de Resistência” contra Israel – que também inclui a Síria, o Hamas e o grupo xiita libanês Hebzollah –, o Irã declarou seu apoio aos ataques contra Israel. Rahim Safavi, conselheiro da autoridade máxima do país, o aiatolá Ali Khamenei, disse que Teerã estará ao lado dos palestinos “até a libertação de Jerusalém”.
Outra questão que ainda deve ser esclarecida é “o eventual, e qual o tamanho, do apoio estrangeiro ao ataque. Podemos ter fornecimento de informações e de armamentos pelo Irã nos últimos meses, em preparação ao ataque”, apontou Figueiredo.
Neste sábado, Netanyahu convocou os líderes dos partidos de oposição Yair Lapid, do Yesh Atid, e Benny Gantz, do Partido da Unidade Nacional, para formar um governo de emergência e união nacional durante o estado de guerra. A ação do Hamas ocorre em meio a protestos contra o projeto de reforma do Judiciário de Netanyahu. “O ataque de hoje mudou o paradigma de ação de Hamas. O grupo entendeu que encontrou o momento adequado para agir”, disse Coutinho.
A proposta pode diminuir o poder da Suprema Corte que investiga diversas denúncias contra o primeiro-ministro por suposta corrupção. No dia 24 de julho, o parlamento israelense aprovou parte da reforma. A oposição ao projeto atinge grande parte da população israelense.
Dias depois da aprovação da reforma, militares da reserva, oficiais de inteligência, comandos, instrutores militares, médicos do exército e soldados de infantaria ameaçaram abandonar o serviço voluntário se o governo levasse adiante o projeto, informou o The New York Times. O país também enfrenta, desde o início do ano, um aumento da violência entre colonos judeus e palestinos na Cisjordânia.
Durante o novo mandato, Netanyahu “endureceu a relação com os palestinos” e o Hamas encontrou uma “porta-aberta” para avançar em Israel, pois o país está divido, citou Coutinho. Ele avaliou ainda que, neste contexto, os israelenses negligenciaram as ameaças externas, como a atuação do Irã.
Entre as possibilidade de piora das relações na região, “temos os recentes conflitos entre muçulmanos e judeus ultraortodoxos na mesquita de al-Aqsa”, apontou Figueiredo. “O comunicado do Hamas chama a operação de ‘Dilúvio de al-Aqsa’. Relembrando, a mesquita de al-Aqsa é a principal de Jerusalém, o terceiro local mais sagrado do Islã. A mesquita fica no lugar que os judeus chamam de Monte do Templo, onde está o que restou do Templo de Jerusalém, o local mais sagrado do judaísmo”, disse Figueiredo.
“Nessa última semana, devido ao Sukkot, diversos judeus ultraortodoxos foram até a Esplanada das Mesquitas para orar. Um deles tentou até sacrificar um carneiro. Esses episódios elevam as tensões, já que se trata de um local sagrado. Isso é referenciado até na nota saudita sobre os ataques”, completou.
A logística mostra que a operação realizada pelos extremistas palestinos levou tempo e recursos para ser preparada. Além disso, a escolha da data reforça a teoria de que o Hamas planejava a ação havia algum tempo. O ataque ocorreu um dia após o aniversário de 50 anos da Guerra do Yom Kippur. No dia 6 de outubro de 1973, Egito e Síria atacaram Israel de surpresa, durante o feriado de ano-novo israelense. O ataque do Hamas ocorreu no sábado, dia considerado o dia de descanso da religião judaica.
Inicialmente, na Guerra do Yom Kippur, Israel teve dificuldades de conter os ataques árabes. Após se organizar, conseguiu lançar contra-ataques aos árabes. Na época, Estados Unidos e União Soviética se envolveram no conflito para evitar uma escalada. O cessar-fogo ocorreu em 25 de outubro de 1973, após a pressão internacional. Cinco anos depois, Israel assinou um acordo de paz com o Egito. Em 1974, foi fechado o Acordo de Desengajamento das Forças com a Síria.
O presidente palestino, Mahmoud Abbas, que governa pequenas áreas da Cisjordânia ocupada através da Autoridade Nacional Palestina (ANP) e não tem controle sobre Gaza, pediu o fim da “atual escalada israelense” contra a Faixa de Gaza durante conversa por telefone com o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken. A ANP liderada por Abbas – deslegitimada internamente e com uma popularidade em declínio em todos os territórios palestinos – é a única entidade reconhecida pela comunidade internacional.
“Trata-se, talvez, da maior falha da inteligência de Israel dos últimos 50 anos. Esse problema é decorrente justamente de um governo enfraquecido e em crise, que estava mais focado em enfrentar os imensos protestos contra a chamada reforma do Judiciário que, na prática, colocaria o Judiciário subordinado ao Knesset. Além disso, a grande presença de religiosos no governo fazia dos assentos na Cisjordânia uma prioridade de segurança, diminuindo a presença militar na região de Gaza”, avaliou Figueiredo.
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Fonte: Gazeta do Povo

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