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Barbas de molho: empresas e mercado financeiro estão menos confiantes na economia

Barbas de molho: empresas e mercado financeiro estão menos confiantes na economia

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Empresas e mercado financeiro puseram as “barbas de molho”. Pesquisas mostram que a confiança do empresariado em relação ao futuro da economia brasileira está em baixa, exceto na indústria da construção. O ânimo dos consumidores, que vinha melhorando, agora pende mais para a cautela.
Um dos principais indicadores, o Índice de Confiança Empresarial (ICE), medido pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), registrou queda em setembro. É o quarto mês consecutivo em uma faixa de confiança moderadamente baixa, entre 94 e 95 pontos. Considera-se que há otimismo em relação à economia quando o índice supera os 100 pontos.
Os resultados são heterogêneos entre os setores, destaca o superintendente de estatísticas do Ibre/FGV, Aloisio Campelo Jr. “A percepção atual dos setores de serviços e construção indica certa resiliência, enquanto na indústria e no comércio as avaliações sugerem uma fase de desaceleração”, diz.

Em setembro, a confiança empresarial aumentou apenas entre 21 dos 49 segmentos pesquisados pela FGV. No mês anterior, o índice havia subido em 25.

Campelo também lembra que as expectativas vêm se tornando menos otimistas, exceto na construção. O segmento prevê um volume de negócios favoráveis para os próximos meses. Dois fatores que podem estar contribuindo são os programas Minha Casa, Minha Vida e o Novo PAC.

Um dos fatores que mais preocupam, na avaliação do superintendente do Ibre/FGV, é o pessimismo das empresas em um horizonte de seis meses. “É uma variável que costuma antecipar decisões de investimentos e contratações nos meses seguintes”, afirma.
A confiança da indústria caiu em setembro pelo terceiro mês consecutivo, segundo o Ibre/FGV. É um resultado das dificuldades enfrentadas pelo setor ao longo do ano, diz o economista Stefano Pacini.
A elevada taxa de juros, o forte endividamento das famílias e o alto nível de estoques, dada a redução da demanda interna principalmente nos segmentos produtores de bens de consumo, vêm limitando o crescimento do setor. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos oito primeiros meses do ano a produção industrial ficou praticamente estagnada (queda de 0,1%) em relação ao mesmo período de 2022.
Outro levantamento, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostra que a confiança do empresário do setor diminuiu em setembro, interrompendo uma sequência de quatro meses seguidos de alta. Segundo a entidade, os industriais estão preocupados com a percepção de piora das condições da economia brasileira e de seu negócio.

O otimismo está mais fraco e menos disseminado na indústria. No mês passado, a confiança recuou em todos os portes de empresa, em todas as regiões e em 21 dos 29 setores pesquisados pela CNI.

A situação passou da confiança para a falta de confiança em segmentos como produtos de metal, serviços especializados para a construção, veículos automotores, produtos de material plástico e móveis.
Outra atividade econômica que registrou queda em setembro foi o comércio. A piora, de acordo com o economista Rodolpho Tobler, do Ibre/FGV, foi tanto nas avaliações sobre o momento atual quanto nas expectativas em relação aos próximos meses.
“A dificuldade de manter a trajetória positiva dos últimos meses parece estar relacionada à desaceleração da confiança dos consumidores e também pelo tempo que o efeito da melhoria das variáveis macroeconômicas, como a redução de juros, vai levar para se refletir na atividade do setor”, diz o economista.
Um cenário parecido é detectado por pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A entidade aponta que, apesar da chegada de datas importantes para o setor, como Dia das Crianças, Black Friday e Natal, o cenário ainda é de cautela. Muitas empresas estão altamente endividadas e, inclusive, inadimplentes, o que limita os investimentos.

Só quatro em cada dez comerciantes estão sentindo melhoria nas vendas, que nos sete primeiros meses do ano cresceram 1,5% sobre igual período de 2022, segundo o IBGE.

“As operações dos negócios, de forma geral, ainda sofrem para impulsionar as vendas, principalmente nos segmentos mais dependentes das vendas a prazo”, diz a economista Izis Ferreira, da CNC.
A confiança no setor de serviços caiu em setembro pelo segundo mês seguido, destaca o Ibre/FGV. Mas a retração pode ser compreendida como um sinal de acomodação depois de o setor passar por uma trajetória de alta ao longo do ano, afirma Pacini.
Nos sete primeiros meses de 2023, o setor registra um crescimento de 4,5%, mostram dados do IBGE. Serviços prestados às famílias (5,6%) e transportes (5,1%), este motivado pela safra recorde, são as atividades que mostraram maior vigor até julho.
“A situação atual é de melhores condições de negócios em relação aos meses anteriores e de manutenção da demanda que vem sendo recuperada aos poucos, reforçando a resiliência do setor. O grande desafio é em relação aos próximos meses. Apesar de sinais positivos no ambiente macroeconômico, a maior parte dos segmentos ainda demonstra cautela em suas expectativas”, diz Pacini.

Ele avalia que, para as datas de fim de ano, a perspectiva de melhora dos aspectos macroeconômicos pode ter impacto positivo em parte do setor, especialmente nos serviços prestados às famílias.
A construção é o único dos setores de atividade econômica a registrar aumento na confiança empresarial, de acordo com o Ibre/FGV. Setembro registrou a terceira expansão seguida e marcou o maior nível em 11 meses.
O avanço nos últimos meses não vem ocorrendo de maneira uniforme, destaca a coordenadora de projetos de construção do instituto, Ana Maria Castelo. “Em setembro, foram as empresas do mercado imobiliário que se mostraram menos confiantes em relação à situação dos negócios correntes e dos próximos meses”, destaca.
Dois fatores que pesam, segundo ela, são a falta de mão de obra qualificada e o acesso ao crédito. Isso ocorre mesmo diante de uma percepção mais positiva em relação à demanda futura.

Castelo destaca que a atividade no segmento industrial seguiu crescendo, com o indicador superando o patamar da neutralidade, o que reforça a preocupação com a falta de trabalhadores.

Outro sinal de alerta vem de levantamento conjunto feito pela CNI e pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). A sondagem setorial realizada pela entidade mostra que as expectativas para os próximos seis meses são positivas, mas o otimismo e a confiança vêm perdendo força. A intenção de investimento também diminuiu em setembro.
Não é só no setor produtivo que as “barbas estão sendo colocadas de molho”. É uma realidade também no mercado financeiro. Pesquisa divulgada no dia 18 pela Genial Investimentos, em parceria com a Quaest, mostra que as avaliações positivas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, caíram entre julho e setembro.
As sinalizações em relação à política econômica voltaram a piorar: 72% dos entrevistados consideram que ela está indo na direção errada, ante 53% em julho.
O principal dificultador é uma política fiscal que funcione. O mercado não acredita na meta do governo de déficit zero em 2024. A mediana das projeções no relatório Focus, do BC, está em saldo negativo de 0,75% do PIB.
O ritmo de melhoria na confiança dos consumidores perdeu força em setembro, aponta o Ibre/FGV. Segundo a analista Anna Carolina Gouveia, fatores positivos em relação à economia ainda prevalecem, mas há um cenário desafiador para o consumidor, marcado por juros, nível de endividamento e inadimplência elevados.

Outra pesquisa mensal, feita pela Ipsos, mostra que a confiança do consumidor apresentou, em setembro, a segunda retração consecutiva. “As quedas recentes podem refletir a preocupação de como os consumidores enxergam o cenário atual e sugerem que o período de lua de mel com o novo governo pode estar perto do fim”, destaca Marcos Calliari, CEO da Ipsos no Brasil.
Um novo componente pode reforçar a perda de confiança entre os agentes econômicos: a guerra no Oriente Médio, após os ataques do grupo terrorista Hamas a Israel, no sábado (7). Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo apontam que, se o conflito se espalhar, o petróleo pode aumentar de preço, pressionando ainda mais a inflação.
“Em momentos de estresse, como este, há uma fuga dos investidores em direção a ativos mais confiáveis, como o ouro e os títulos do Tesouro americano”, diz o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung. Uma eventual fuga de capitais jogaria para cima a cotação do dólar, com o provável efeito de aumentar a inflação por aqui.

Outro agravante, de acordo com William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, é que uma alta mais forte do petróleo tende a tirar tração da economia mundial – o que afetaria, por exemplo, as vendas de commodities.
“Isso é ruim para países produtores, como o Brasil”, diz. Um menor crescimento da economia mundial faz com que a demanda de insumos básicos e matérias-primas seja menor.
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Fonte Gazeta do Povo

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