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5 motivos para Lula se preocupar com uma vitória de Milei na Argentina

5 motivos para Lula se preocupar com uma vitória de Milei na Argentina

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O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teme uma vitória do candidato libertário Javier Milei nas eleições argentinas deste domingo (22) por uma série de razões que podem afetar profundamente a relação entre o Brasil e a Argentina, além de induzir nova dinâmica política e econômica para a América do Sul.
Essa eventual virada na Argentina, com a volta de um governo de direita em meio à severa crise social e financeira, assusta o Planalto também pelo risco de ela enfraquecer a influência da esquerda no continente e da liderança regional brasileira e perante o cenário global.
“É natural que eu esteja preocupado (com a vitória de Milei)”, admitiu o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), na quinta-feira (19). Para ele, o candidato da Liberdade Avança (LLA), favorito nas pesquisas na corrida para a Casa Rosada, vai “ideologizar as relações internacionais” e chama a atenção para a postura crítica dele em relação ao governo de Lula.
Para analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, os temores da esquerda brasileira, sobretudo do governo, vão além disso. Veja quais são os motivos.
Conhecido pela postura crítica em relação a acordos de comércio regional e multilateral, um eleito Javier Milei poderia levar à revisão de compromissos da Argentina com o Mercosul e à busca de acordos comerciais individuais. Assim, uma nova orientação para a segunda maior economia do bloco poderia enfraquecê-lo e colocar sua continuidade em risco. Sobre a relação com o Mercosul, a quem chama de “união aduaneira imperfeita”, o candidato libertário já avisou que a Argentina “seguiria seu próprio caminho”, caso ele seja eleito. O Brasil exerce a presidência rotativa do bloco em meio a tensões abertas com o governo uruguaio, de centro-direita, que pede flexibilização.
Lula tentou, desde o começo de seu mandato, buscar caminhos para ajudar a Argentina a deixar a sua profunda crise econômica, propondo parceria estratégica entre os dois países e atuando junto a outros países e órgãos multilaterais para buscar fontes de financiamento e renegociar dívidas. A vitória de Milei poderia encerrar de vez esses esforços. Lula tem relação pessoal de amizade com o atual presidente argentino, Alberto Fernández, que chegou a visitá-lo na prisão logo após ser eleito em 2019.
O Planalto foi duramente criticado pela oposição brasileira e pelo próprio candidato libertário por suas tentativas de, segundo eles, interferir no processo eleitoral argentino. As ações incluem apoiar a entrada da Argentina no Brics, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul; acenar com empréstimos do BNDES; apelar ao Fundo Monetário Internacional (FMI) por novo tratamento ao país vizinho; firmar operações financeiras, incluindo acordo de US$ 600 milhões; e um empréstimo de US$ 1 bilhão junto ao Banco de Desenvolvimento para a América Latina.
A Argentina procurou assistência do Brasil para lidar com desafios relacionados ao financiamento de importações. No entanto, as negociações não progrediram. Haddad reconheceu que o governo elaborou quatro propostas diferentes, todas destinadas a oferecer garantias que possibilitariam ao Brasil financiar as importações da Argentina. No entanto, nenhuma dessas propostas avançou devido à incapacidade ou falta de capacidade do governo argentino em atender às exigências estipuladas.
Marqueteiros e estrategistas ligados ao PT participam da campanha do candidato governista Sergio Massa, atual ministro da economia, com quem Haddad tem buscado costurar formas de socorrer o país vizinho.
A vitória de um candidato libertário na Argentina enviaria um sinal claro de derrota para a esquerda sul-americana, o que anima políticos de direita no Brasil e em outros países. Um grupo de 69 deputados de oposição a Lula assinaram uma carta pública de apoio a Milei nas eleições, destacando que o direitista representa a “esperança de mudança e renovação para o povo argentino e para a América Latina”.
A maioria dos países da América do Sul segue dominada por governos esquerdistas, mas já iniciou uma inflexão à centro-direita e direta após as vitórias de Santiago Penã (Paraguai), de Luis Lacalle Pou (Uruguai) e, mais recentemente, de Daniel Noboa (Equador).
A vitória de Milei representaria um duro golpe para a esquerda na América do Sul, que tem como o retrato mais trágico a Venezuela e que retomou nos últimos anos a liderança de países como Argentina, Brasil e Chile. A guinada à direita na Casa Rosada poderia enfraquecer a influência regional e global desse bloco de países, prejudicando a agenda política do PT.
Famoso por suas políticas econômicas radicalmente liberais, em contraste com a abordagem estatizante dos atuais governos argentino e brasileiro, Milei pode implementar um novo e contrastante modelo na América do Sul. Caso vença, ele pode construir um contraponto significativo de iniciativas em favor da livre iniciativa e da retirada da presença do governo em vários setores da economia e da vida da população, estimulando debates e comparações com soluções apresentadas historicamente pelo PT.
A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás só da China e dos Estados Unidos. Uma vitória de Milei poderia afetar o comércio entre os dois países em tese, embora o candidato tenha dito que não interferirá nas iniciativas de cada importador ou exportador.
Chamado de “Bolsonaro argentino”, ele afirmou durante a campanha que pretendia limitar iniciativas de governo para promover o comércio com o Brasil, classificando Lula de “comunista raivoso” e “socialista com vocação totalitária”.
A esquerda na América do Sul historicamente defendeu uma profunda integração regional nos planos político e econômico, incluindo a criação de uma moeda comum para seus países, semelhante ao euro. A vitória de Milei, que se opõe abertamente aos projetos nessa direção, poderia significar o fim desse sonho dos governos esquerdistas e retardar algumas ações em curso em favor da cooperação multilateral.

Além da aversão ao Brics e ao Mercosul, o libertário também pode sepultar as iniciativas de Lula para retomar a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), organismos regionais criados durante governos petistas e com viés de esquerda.
Leandro Gabiati, diretor da Dominium Consultoria, vê a corrida presidencial argentina como ruptura da tradição bipartidária de 40 anos. “A emergência de uma terceira força, distinta da centro-esquerda peronista e da centro-direita tradicional, reflete o colapso do sistema político incapaz de enfrentar as crises. O candidato libertário é um exemplo notável desse cenário, mas o seu futuro ainda é incerto”, avaliou. Milei conquistou 30% dos votos nas primárias argentinas (obrigatórias) e tem chances, ainda que pequenas, de vencer no primeiro turno, considerando que há cerca de 20% de eleitores indecisos.
Caso não conquiste a presidência no domingo (22), o favorito nas pesquisas poderá ser beneficiado se o seu adversário nas urnas em 19 de novembro for Sergio Massa, representante do impopular governo Alberto Fernández, quando o desejo reinante é de mudança. Se disputar com Patricia Bullrich, o eleitorado avesso ao peronismo se dividirá.
“De toda maneira, a governabilidade de um eventual governo Milei dependerá da composição do Congresso, que será só parcialmente renovado no pleito, para aprovar as mudanças que propõe. Ele poderá ceder ao pragmatismo e buscar alianças com o grupo de Patricia, sendo que já foram iniciadas conversas com o ex-presidente centro-direita Maurício Macri”, acrescentou.
Segundo o cientista político argentino, uma vitória de Milei não deve gerar efeito de contágio nas próximas eleições de outros países da América do Sul, uma vez que “cada dinâmica própria”. No entanto, ele admite que a direita brasileira poderá se beneficiar, capitalizando seu discurso com uma derrota expressiva da esquerda no país vizinho, enquanto busca candidato competitivo em 2026 e aguarda o saldo da gestão Lula.
Natália Fingermann, professora de relações internacionais do Ibmec-SP, enxerga a chance de Patricia Bullrich apoiar Milei contra Massa, caso ela não seja a desafiante e apesar do perfil antissistema dele. Tal acordo é, segundo a analista, essencial também para preparar o terreno para um governo do libertário.
“A capacidade dele de implementar qualquer uma das suas agendas polêmicas, como a dolarização e as reformas dos modelos públicos de saúde e educação, depende da aprovação de larga maioria parlamentar, por envolver questões de natureza constitucional”, avaliou.
A professora prevê a necessidade de Milei moderar posturas para não sofrer críticas da população caso as suas propostas sejam barradas dentro de um quadro social desafiador, com inflação mensal na casa de dois dígitos, rumo à uma terceira hiperinflação, após as das décadas de 1980 e 1990. A decisão de sair do Mercosul, por exemplo, já sofreu alguma inflexão, pois grande parte do empresariado argentino se beneficia desse ambiente comercial.
“Mas o bloco sofrerá grandes dificuldades em um governo dele, com recuo dos esforços liderados pelo governo brasileiro para fortalecer alianças e ampliar número de membros”, observou. As relações bilaterais também deverão sofrer prejuízos na questão ambiental, considerada estratégica por Lula, mas irrelevante por Milei.
Para o consultor de empresas e palestrante Ismar Becker, Milei é “uma das poucas novidades na política na América do Sul”. Segundo ele, o economista e político argentino chama a atenção não só por sua cabeleira despenteada, mas pela capacidade única de explicar como a macroeconomia afeta o dia a dia das pessoas, sobretudo quando a Argentina “afunda cada vez mais e clama por soluções corajosas para tirá-la da permanente crise”.
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Fonte: G Bahia

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