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Pobreza, inflação: quais pontos vão influenciar o segundo turno na Argentina

Pobreza, inflação: quais pontos vão influenciar o segundo turno na Argentina

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No dia 19 de novembro, os argentinos voltarão às urnas para escolher o próximo presidente do país. Desta vez, os cidadãos deverão escolher entre Sergio Massa, candidato da coalizão peronista União pela Pátria e atual ministro da Economia, e o libertário Javier Milei, que disputa a presidência do país pela coalizão A Liberdade Avança.
No primeiro turno, Massa terminou em primeiro lugar, na frente de Milei, apesar de várias pesquisas terem apontado o libertário como favorito. Neste segundo turno, Milei conta com o apoio de Patricia Bullrich, terceira colocada nas eleições do primeiro turno, e do ex-presidente da Argentina Mauricio Macri (2015-2019).
Bullrich, que disputou a presidência pela coalizão de centro-direita Juntos pela Mudança, decidiu anunciar o seu apoio “pessoal” ao libertário, para impedir que o peronismo e o kirchnerismo permaneçam na liderança da Casa Rosada.
Tanto Milei quanto Massa apresentam visões opostas sobre diversos temas que afetam a vida dos cidadãos argentinos e as relações com países vizinhos. Neste segundo turno alguns pontos importantes poderão influenciar a decisão dos argentinos no momento em que estiverem depositando seus votos na urna.
A seguir, apresentaremos alguns desses pontos que podem influenciar o resultado final da disputa presidencial de segundo turno na Argentina.
A inflação tem sido um problema crônico na economia argentina, que afeta diariamente o poder de compra da população, dificulta o planejamento financeiro e colabora para o agravamento da crise econômica que assola o país sul-americano. Em setembro deste ano, a inflação acumulada em 12 meses na Argentina foi de 138,3%, uma das maiores da América Latina e do mundo.
Assim como pautou os debates e a opinião pública no primeiro turno, o tema relacionado a inflação pode novamente mexer com a decisão final do eleitor argentino. Apesar de ser o atual ministro da Economia em meio ao descontrole financeiro do país, Massa ainda conseguiu terminar em primeiro lugar no primeiro turno das eleições argentinas. O candidato peronista reconhece que a inflação é um desafio “urgente e complexo”, que requer um plano “integral e sustentável” para ser resolvido.
Massa afirma que, caso eleito neste segundo turno, o seu objetivo é reduzir a inflação argentina para “um dígito” até o final do seu mandato, através de uma combinação de políticas fiscais, monetárias e cambiais. Ele também defende um acordo social entre o governo, os empresários e os trabalhadores do país, para conter os aumentos de preços e salários.
Por sua vez, o candidato libertário Javier Milei atribui a inflação à emissão descontrolada de dinheiro pelo Banco Central, que financia o déficit fiscal do governo argentino. Ele afirma que a única solução para isso é acabar com o “monopólio estatal da moeda” e dolarizar a economia argentina. Milei também defende uma redução drástica dos gastos públicos e dos impostos, para eliminar o déficit fiscal e estimular o crescimento econômico.
Para o professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) e pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (CMLE), Allan Augusto Gallo Antonio, o peronista Sergio Massa enfrentará novamente neste segundo turno o ônus de ser o ministro da Economia em meio ao descontrole inflacionário.
“O partido da situação não parece estar aberto a fazer concessões em seu programa e ressuscita políticas econômicas ultrapassadas, que não fazem nada além de aprofundar a crise, retardar a recuperação e retirar o país das cadeias econômicas internacionais por meio de medidas protecionistas como as pesadas taxações das exportações”, disse.
Em entrevista à Gazeta do Povo, Gallo Antonio destacou que, no entanto, as propostas mais radicais de Milei, apesar de atraentes para alguns, são percebidas como “potencialmente assustadoras para o eleitor médio”, carecendo de persuasão quanto à “viabilidade e governabilidade caso eleito”.
A segurança pública tem sido nos últimos anos uma das principais preocupações dos argentinos, que sofrem ainda com índices significativos de criminalidade e violência. Segundo dados oficiais, em 2022 houve quase dois mil homicídios e mais de 80 mil roubos em todo o país.
Em agosto desse ano, a cidade argentina de Las Heras, localizada na província de Mendoza, foi palco de um tumulto após saqueadores atacarem a polícia local com pedras e garrafas. Após os ataques, os saqueadores decidiram invadir e roubar açougues e comércios da cidade.
A sensação de insegurança pode moldar a escolha do eleitor no dia 19 de novembro. O candidato libertário Javier Milei defende uma política de segurança baseada na liberdade individual e no direito à legítima defesa.
Milei propõe eliminar o controle estatal de armas para poder permitir que os cidadãos argentinos possam portar e usar armas para se proteger da criminalidade. O libertário também defende uma redução da maioridade penal, uma reforma das leis de segurança interna e a militarização das unidades prisionais da Argentina, bem como o fim do pagamento de qualquer auxílio financeiro para quem está cumprindo uma pena.
Por sua vez, Sergio Massa defende uma política de “segurança cidadã”, que priorize a “prevenção, a inteligência e a integração das forças policiais”. Ele também propõe aumentar o orçamento e o salário dos agentes de segurança, bem como investir em equipamentos e tecnologia. Além disso, ele apoia a reforma do código penal e do sistema penitenciário, para garantir penas mais duras para os crimes graves e mais “oportunidades de reinserção social para os presos”.
A pobreza é uma das consequências mais dramáticas da crise econômica e social que afeta a Argentina e que foi agravada pelas decisões políticas desastrosas do atual governo peronista de Alberto Fernández e Cristina Kirchner.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec), mais de 11 milhões de cidadãos argentinos que residem em áreas urbanas vivem atualmente na linha da pobreza, ou seja, 40% da população urbana do país não tem acesso atualmente a condições básicas para se viver com dignidade.
O tema pode influenciar diretamente na escolha do próximo presidente do país, que receberá uma Argentina mergulhada no caos econômico e social.
Para Massa, candidato do peronismo, a pobreza é uma questão estrutural, que exige “políticas públicas de longo prazo”. Ele propõe um plano nacional de desenvolvimento “humano integral”, que inclua programas de renda básica, educação, saúde, habitação, alimentação e emprego. Massa também defende uma maior distribuição de renda e uma reforma tributária progressiva.
O candidato libertário Javier Milei considera que a pobreza é uma consequência da intervenção estatal na economia, que gera distorções e ineficiências. Milei propõe eliminar todos os subsídios e assistencialismos do governo, bem como as barreiras comerciais e regulatórias que impedem a livre iniciativa. O libertário ainda defende uma maior liberdade econômica para que a população tenha a oportunidade de empreender e uma reforma tributária profunda.
Gallo Antonio destaca que a camada mais pobre da população, impactada pela inflação e pela perda de poder de compra, pode ver nas propostas políticas mais radicais de Milei uma possível solução para a crise, e por isso optar pelo libertário no dia 19 de novembro.
No entanto, o professor também apontou que 20% da população argentina atualmente está empregada no setor público, sugerindo que uma parte significativa desse grupo pode inclinar-se a favor de Massa, dada a defesa de Milei pela redução do Estado.
O Mercosul, bloco econômico e político da América do Sul que reúne Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai como membros plenos, e outros países como associados, representa atualmente um mercado de mais de 260 milhões de consumidores e um parceiro estratégico para o comércio exterior da Argentina.
O tema tem causado debate entre os cidadãos argentinos que se dividem entre apoiar a saída do país do bloco e a manutenção no mesmo.
Javier Milei rejeita o Mercosul, bloco que ele classifica como um entrave para a competitividade e a soberania da Argentina. Ele propõe sair do bloco e adotar uma política comercial unilateral, baseada na eliminação de todas as tarifas e cotas de importação e exportação. Ele também defende uma maior autonomia política e diplomática da Argentina, sem alinhamento com nenhum bloco ou país.
Já Massa apoia o fortalecimento do Mercosul, como um instrumento de integração regional e de “inserção internacional da Argentina”. O candidato peronista propõe aprofundar a união aduaneira, harmonizar as normas e regulamentos, ampliar a livre circulação de bens, serviços, pessoas e capitais, e negociar acordos comerciais com outros blocos e países. Ele também defende uma maior coordenação política e diplomática entre os membros do bloco.
Principal tema do primeiro turno das eleições, a economia problemática da Argentina segue sendo um dos assuntos principais neste segundo turno. Os cidadãos argentinos sofrem neste momento com a recessão, o desemprego, a dívida externa, a fuga de capitais, a escassez de divisas, o descontrole cambial e o déficit fiscal e monetário.
Os problemas econômicos da Argentina podem moldar a percepção e a escolha da população neste segundo turno. Desta vez, ambos os candidatos ainda terão que disputar os votos de Patricia Bullrich, que já deu seu apoio formal a Milei, e pode ser decisivo para a definição do resultado final
O medo e a incerteza sobre o futuro econômico da Argentina pode ser um dos principais fatores para a decisão final do eleitor argentino que ainda está indeciso ou que votou na candidata de centro-direita.
Carmen Torres Narváez, professora da Universidade Nebrija, na Espanha, escreveu em sua análise para a revista El GrandContinent que a profunda rejeição ao peronismo por parte dos eleitores da coalizão Juntos pela Mudança torna quase improvável que eles deem o seu voto ou apoio a Sergio Massa.
Partindo dessa observação, vislumbra-se então a possibilidade de uma parcela significativa desses eleitores da então coalizão liderada por Bullrich direcionar seu apoio e voto para Milei, dada a postura liberal e antiperonista do economista.
Também neste segundo turno, é provável que ambos os candidatos intensifiquem ainda mais os seus discursos e propostas para resolver os problemas econômicos do país sul-americano.
Javier Milei tem como principal proposta para a economia argentina mudar radicalmente o modelo econômico vigente no país. Ele afirma que tem um plano liberal e revolucionário para dolarizar a economia, reduzir drasticamente o tamanho do Estado, eliminar todos os impostos e subsídios, abrir totalmente o comércio exterior e privatizar todas as empresas públicas. Milei também promete acabar com a corrupção e a burocracia, que são dois problemas que, segundo ele, ajudam a deteriorar a economia do país.
Massa, por sua vez, tem como principal desafio reverter os indicadores negativos de sua atual gestão como ministro da Economia. Ele afirma que tem um plano “integral e sustentável” para estabilizar a economia do país, baseado na recuperação do crescimento, na geração de emprego, na renegociação da dívida com o FMI e na recuperação da confiança dos investidores. Massa também promete manter as políticas sociais e os incentivos produtivos.
Para Gallo Antonio, em termos econômicos, “as propostas do Milei representam uma mudança radical no peronismo de quase 20 anos ininterruptos”. O professor pontua que “as propostas de diminuição do estado, abertura comercial e dolarização da economia vão na contramão do protecionismo desenvolvimentista, que, somado aos pesados subsídios destinados ao custeio de alguns instrumentos de bem-estar social, empurraram a economia argentina para o buraco em que se encontra”.
No entanto, ele diz que Massa “representa nitidamente” neste momento “a continuidade do modelo atual, que, apesar de ter se provado falido ao longo das últimas décadas, pode passar a sensação de uma mudança menos abrupta para uma sociedade que dificilmente consegue formar uma maioria para aprovar um programa de governo cujas propostas só farão sentir seu efeito no longo prazo”.
O professor também destacou que Massa tem o “apoio público do governo brasileiro, que não tem interesse em ver o desalinhamento político-ideológico do segundo maior país” do Mercosul.
“O empréstimo de US$ 1 bilhão para Argentina, às vésperas da eleição, avalizado pelo Brasil, demonstra claramente isso, pois mesmo que os representantes do governo neguem o interesse político, essa verba é uma forma de permitir que a Argentina continue tendo, pelo menos dentro do período eleitoral, uma maneira de cumprir com suas obrigações financeiras”.
Gallo Antonio observou que o empréstimo poderá trazer consequências graves para a economia argentina no futuro, no entanto, ele diz que o “interesse de Massa nesse momento não é na responsabilidade fiscal, mas na manutenção do poder”.
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Fonte: Gazeta do Povo

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